quinta-feira, 24 de abril de 2008

Só mais uma poesia

É algo que não consigo,
voz presa
coração calado.
Meu medo é vulgar.
Sofro tanto por tão pouco,
quero tanto e não amo nada,
falo tanto e ninguém me escuta.
Grito.
De todas as pessoas que chamei de egoísta eu sou a mais.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

O mendigo e uma tal felicidade.

Da casa para o ponto de ônibus não era tão longe, o sol tinha lhe queimado as faces de um vermelho que ela não gostava, era quase meio dia e ele o sol ainda estava calmo. Tinha dado só um trago para relaxar, mas esse trago tinha lhe feito pensar que da casa ao ponto de ônibus o tempo de percurso era o bastante para lhe fazer pensar demais. Tinha se pego parada olhando para um mendigo que pedia esmola sem muita vontade, estava apenas olhando para ele fixa sem pensar em nada, não havia o que pensar, mas a imagem feia e relaxada do mendigo lhe chamou atenção. Percebeu que as pessoas andavam apressadas não porque estavam ansiosas para um longo dia de trabalho, mas porque era a rotina e se atrasar seria um crédito a menos com o chefe, e um motivo a mais para a perca do emprego. Estava tudo correndo normalmente, era comum a pressa, mas o mendigo não tinha pressa, nem coragem para se levantar e correr como os outros e dormia de lado do chapéu surrado que já continha algumas moedas. De repente um pensamento desses sem importância lhe tomou, quem era mais feliz, o mendigo ou as pessoas que correm apressadas em busca de sustento? Qualquer um diria que as pessoas que mesmo apressadas ainda vivem melhor que o mendigo, com casa e comida. O mendigo não tinha nada, vivia na rua, não votava, não tinha família, dormia com qualquer uma que podia estar ou não na mesma situação, não trabalhava, e o dinheiro que ganhava por dia servia para comer, salvo as roupas que lhe davam e o cobertor que ganhara na campanha do natal passado, a noite iria dormir debaixo do viaduto com os outros miseráveis e se tivesse sorte em um abrigo às vezes lhe aceitavam e lhe davam banho. Mas naquele ponto de ônibus ela pensou que não, o mendigo era mais feliz, talvez ele já tenha tido família, pensou, casa, roupas limpas e até um carro, talvez o cachorro que lhe lambia de vez em quando fosse o mesmo de antes, da sua família. Pensou que poderia perguntar isso a ele, e se ele era feliz. E porque não seria? E porque achou que ele era mais feliz do que as outras pessoas que entravam nos ônibus apressadas para o emprego que nunca sonharam? Pensou que ele seria mais feliz, por não ter que sair de casa cedo para ir pro trabalho, que não era o de astronauta que sonhara quando criança, mas o de motorista cansado das outras pessoas também cansadas, porque não dormia com um homem ou com uma mulher que tinha se casado por pura convenção de uma sociedade que exige um casamento, porque não tinha filhos e porque não tinha que jogar na cara deles que os tinha e agora tinha que os sustentar, jogando neles todas as suas frustrações. Talvez o mendigo não fosse mais feliz por isso, talvez a dona de casa atrasada levando as crianças para o colégio gostasse da sua vida, mas era uma coisa tão automática, percebeu que nem o mendigo era livre, que mesmo que não tivesse responsabilidades, a não ser a de conseguir comida, sua vida tinha tanta rotina quantas as outras, e tão sem por que. Que qualidade de vida é essa que inventa controles remotos e comidas enlatadas, tudo para ser rápido e prático, qualquer dia o pôr-do-sol vai vim numa dessas latinhas, é só abrir e colorir a casa com vermelho e laranja. Para quê tanta pressa a caminho do mesmo fim, a morte. O mendigo não seria mais feliz por não ter que pagar IPTU, talvez ser mendigo fosse sua opção, teria desistido de vencer na vida. Teria desistido de andar apressado em busca do mesmo tédio de sempre, e em troca escolheu um tédio que não lhe causava esforço, mas que lhe custava caro, muito caro. Se ele preferia uma casa e um trabalho? Talvez não. Muitos preferem a “vida fácil” de pedir esmolas na rua. Vai trabalhar vagabundo dizia alguns que passavam, e o mendigo lhes sorria, tão vagabundo seria qualquer um que desistisse de trabalhar, talvez algumas pessoas tenham até inveja dele, sem patrão para reclamar, sempre uma nova aventura todo dia, e uma cachaça no final da noite para dormir tranqüilo no banco da praça, não era mesmo uma vida de se invejar, mas também não era de se invejar a vida automática das pessoas que passavam apressadas, tão decididas a marchar para o mesmo nada, nem sequer reparam no mendigo na rua, é um vagabundo qualquer pedindo esmolas, um nada, um Zé ninguém, um lixo, um pedaço de carne no chão que muitos esbarravam. Nem mesmo o mendigo, nem mesmo as pessoas apressadas com suas vidas enlatadas, nem mesmo o cara do carrão que jogara uma moeda para o mendigo, eram felizes, todos caminhavam para o mesmo nada. Mas o mendigo era a escória, o avesso, era o que ninguém queria ser e ao mesmo tempo o que teve coragem ou não para estar onde estar, e era ele que continuava nas esquinas importunando as outras pessoas com um chapéu a pedir esmolas, querendo que lhe banquem, o resto da sociedade que ninguém tomou conta, o peso nas costas das outras pessoas que lhe viam e que não sabiam se devia dar ou não esmolas, o peso na consciência dessas pessoas, o medo de serem como ele, ou melhor, de terminarem como ele, o mendigo não tinha vergonha, era falso, livre, era a vida que lhe ensinou que as pessoas lhe ajudavam por obrigação sob a luz de uma lei divina qualquer, e que lhe odiavam, lhe repugnavam. O mendigo não era nada e sua vida era tão sem sentido como as outras, mas ele vivia como um animal, comendo e dormindo, fazendo o que o instinto lhe pedia, e os outros viviam como “pessoas”, “gente”, indo pro trabalho e dormindo sempre na mesma hora, ambas as vidas sem grandes felicidades, talvez as “pessoas” se sentiam mais felizes por comerem aquela comida deliciosa desejada, coisa que o mendigo invejava, pois só comia o que lhe davam.
Era um dia qualquer e o ônibus tinha chegado dessa vez mais cedo, ela entrou no ônibus e se esqueceu rapidamente do mendigo, das pessoas, e da felicidade. Na rua o mendigo voltava a dormir, o mesmo sono vagabundo.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Amor bom também tem que doer...

Quando você me deixou ainda era cedo, ainda não sabia que você também se magoava. Era manhã e ainda não era verão, o sol brilhava e eu não quis vê-lo brilhar mais forte nos seus olhos, sem querer escolhi estar só, e fiquei por um mês. Foi a primeira vez que você me deixou errar, e a primeira vez que quis ir embora. Eu busquei entre noites, telefones, copos e cigarros, teu cheiro, teu olhar e tua voz, mas você cumpriu a promessa e não quis me ver. Foi assim durante dias, dias que me fizeram pensar quem era eu, quem era você, quem eu amava, por quem você sofria, e porque o amor tinha que vir sempre acompanhado do ódio. O que era forte inabalável como aço virou vidro e se quebrou como todos os outros amores perdidos nessa cidade, e nós, nos cortamos. Sangrei, e você se lavou e se sujou com meu sangue, que depois de estancado pode correr de novo pelas veias apaixonadas de nossos corações confusos que ainda batiam, mas num ritmo lento. Depois de estar ao seu lado de novo e de se comportar como uma dessas mulheres de Chico que se sacrificam e jogam fora todo seu orgulho por amor, eu quis ser de novo sua e perfeita, mas você como homem que é, e diz ser, não quis, preferiu vestir de novo o personagem do cara que maltrata, o cara que nem sequer chegava perto do cara que antes lutava comigo pela nossa liberdade. Talvez por falta de amor, e talvez ainda porque eu ainda não consegui entender direito que o amor também acaba, e que o seu é passado e o meu presente, imperfeito. E mesmo que um amigo me dissesse que eu teria que entender que tudo tem seu começo, meio e fim, eu continuei a esperar. E esperei, como quem pega um ônibus errado e desce num lugar estranho, esperei o milagre que nunca acontecia, e que nunca poderia acontecer. Deixo de ser cristã. Deus realmente não existe. Escutei tantos pagãos que me disseram isso e eu não quis acreditar, mas agora paro e penso e não rezo mais por ti, mas infelizmente ainda há um resquício dessa minha antiga crença, que me faz ainda olhar pro céu e ter esperança, olhar pro telefone e ter esperança, só que agora não vou mais em busca de ser eu mesma a protagonista da história, aquela que é maltratada pelo vilão. Agora não quero mais estar em história nenhuma e em jogo algum. Você acredita estar me manipulando como um pastor guiando um rebanho, mas eu agora sou a ovelha desgarrada. Eu agora não quero mais esperar, nem você, nem o amor e nem outra pessoa.
Como diz o poeta “que seja infinito enquanto dure”, e foi, assim como o que deve durar somos nós, e sou eu. Quanto ao sentimento, este se perde pelo o erro ou orgulho de alguém ou de todos. Você me deu um tempo muito largo que me deu tempo para pensar que eu ainda estou viva, e que não posso esperar como uma velha senhora que espera uma carta que nunca chega porque foi extraviada. É assim, e tudo de bom se foi assim como tudo de ruim também irá, se perdem as esperanças e se perdem as antigas crenças, tudo isso porque também se aprende que “amor bom também tem que doer”.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

No quarto

Os lençóis são mudos
e os temas tristes.
O coração dispara.
Teus dentes me apavoram
prefiro a nós,
mas queres outros,
egoísmo
ciúme
paixão.
O tempo parece curto
tomemos um vinho
talvez nos encontremos.
Escuto uma canção
desejo um cigarro.
Busco-me nos meus pensamentos
tento decifrar os teus,
é teu olhar que não diz tudo
e seu sorriso é irônico
corta.
Mas quero tua língua
desejo que desejes
quero se quiseres
prefiro se preferir,
mas que seja eu
senão me esqueço,
volto a música,
aos pensamentos,
e compro um cigarro.

domingo, 21 de outubro de 2007

O livro da estante

O bom e velho livro na estante estava esquecido há tempos, ele percebeu a poeira tocando na capa, uma poeira sombria que ele afastava com um sopro de ar que levava as partículas para os outros livros no chão, estava de mudança, chegara na nova casa à noite e estranhara os objetos deixados pelo antigo morador, quadros, livros, uma poltrona, uma velha chaleira, estranhamente tudo que precisava naquela noite depois de arrumar os seus pertences e dar lugar aos seus livros na nova velha estante, estava cansado e não terminara de organizar tudo, nem tinha trazido tudo, mas a poltrona ainda nova estava lá quase que a sua espera. Respirou fundo e percebeu o silêncio do novo endereço um silêncio que jamais havia escutado, um silêncio que restava naquele lugar cheio de passado, onde só conseguia escutar seus pensamentos, teria sido melhor mesmo mudar de lugar, fugir da incompreensão da cidade? Neste instante percebera que ficaria louco se continuasse ali, mas foi só por um momento, só porque estava só, e a solidão assusta.
O café quase que derramava na chaleira, vago nos seus pensamentos acordou e correu para desligar o fogo, sentado na poltrona perto da janela sentia o vento bater nos pêlos da sua face e logo percebeu que já estava se acostumando com o lugar, pegou no livro que havia sido deixado na casa e folheou as páginas, nunca havia lido aquele chamado Noites brancas, era a estória de um homem que se apaixona por uma mulher que apenas lhe deu um único beijo e que partira, mas mesmo assim ele se sente feliz, por ter um único momento de felicidade. Apropriado, pensava.
Tinha fugido, fugido não de uma cidade feia e suja, nem de um trabalho maçante, até gostava, tinha fugido de um amor não-correspondido, ela o havia deixado, ela descobrira que não o amava mais, e ele a amava profundamente, sofreu, mas deixou que ela seguisse o seu caminho, o que poderia fazer, de todos os males do mundo a falta de amor parece o pior, e pior para esquecer também pois em todos os lugares que você vai esse estranho sentimento assim chamado de amor está presente, basta ligar a tv ou o rádio, uma revista, um livro, e lá está ele, assim como estava no livro que encontrara. Tinha entrado em depressão e achou melhor se “isolar” por um tempo num lugar distante sem muitas pessoas, para refletir dizia. A noite era escura demais e a falta de luzes artificiais dava lugar ao brilho das estrelas, poderia se contar muitas, percebeu, vagou pela varanda e mais uma vez se notou só, será que essa solidão seria o melhor jeito de esquecê-la? Pensou. Mais uma vez estava pensando nela, nos poucos carinhos que ainda conseguiu ter antes que ela fosse embora, mais uma vez pensava, e pensava que seria ainda muitas noites e muitos dias pensando. Não conseguia desviar dos pensamentos, um certo amigo lhe disse para não fugir e aceitar tudo que acontecesse, era a melhor forma, mas a melhor forma que achou foi fugir, desde criança sempre fugira de todos os seus medos, desde o menino valentão do ginásio até o chefe do trabalho, desde os sermões do pai até o sofrimento da perda de sua mãe. Mas naquele instante percebeu que não adiantava, o amor que sentia era inacabado, ou tentava tê-la mais uma vez ou aceitava conviver com ela mas sem ela. Tinha funcionado, tinha fugido para aquela casa para refletir e em menos de uma noite estando lá já havia refletido tudo, precisava voltar, seria difícil, mas dessa vez era uma questão de honra não fugir, voltar...voltar...voltar.... O café respingou na sua blusa e antes que fosse procurar outra para vestir, fechou a mala e decidiu voltar no mesmo instante, pegou os livros da instante e colocou tudo de volta na caixa retornando tudo ao carro, antes de ir olhou a casa que lhe afeiçoara no pouco instante em que estivera, olhou para tudo e viu o livro que havia sido encontrado quando chegou na casa, foi à estante e o pegou, era o que precisava, talvez fosse a próxima companhia nas noites que viriam solitárias, talvez aprendesse com o personagem a se conformar, a aceitar que o seu amor era inacabado, a aceitar que o dela diferente do dele tinha acabado, a aceitar que não conseguia esquecê-la mas que um dia tudo ia passar e o que ia ficar era lembrança de um momento de felicidade, assim como o personagem do livro.

sábado, 13 de outubro de 2007

Pretensão

Te quero simples
nu, explicito
barba, ombros, cabelo.
Te quero homem
romântico
tímido e extrovertido
piegas e verdadeiro.
Te quero usar
te guardar
menino, homem, animal.
Te quero livre
sem exageros
vaidoso e pretensioso
poético e preguiçoso.
Te quero macho
sexo
cigarros, costas, falo.
Te quero meu
vícios, segredos, decepções.
Te quero sempre.
Com tua face em meu peito
teu coração a transbordar.
Te quero
quando quiser.