sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Sono

Fechar os olhos
Adormecer os pensamentos
Escutar o inconsciente se manifestar.
Preciso achar a melhor cama
E ouvir uma canção de ninar
Quero morrer
E acordar pela manhã
Quero a noite
Sem goles e tragos
Apenas sonhos
Que nunca passarão
A ser
Realidade.

sábado, 14 de novembro de 2009

Vida


Com a mesma pressa da chegada, a partida, em ritmo certo para a mesma velocidade, em destinos contrários, janelas embaçadas dentro das pupilas cansadas de rotina e silêncio cotidianamente constrangedor. As mesmas caras expostas nos mesmos aposentos largados em frente a cada um, com a paisagem cheia de nucas desconhecidas e cabeças, e cabelos e mais nucas e nunca a conhecer nenhum pensamento delas. Digo, nem sempre nunca, vez ou outra, uma dessas nucas inclinava-se para o seu lado e começava a falar sobre o tempo, a vida ou a morte. Ela com atenção escutava procurando traços de si nos outros, ora fingia escutar procurando traços de algo desconhecido nos rostos e esquecendo as palavras ouvidas. Tudo passando veloz, como os carros amigos ao lado, conversas, ruas, pessoas, casas e luzes. Com tanta paisagem se pintaria milhões de quadros, mas a velocidade na janela não deixava fotografar, se perdia em seus pensamentos e eles passavam ligeiro como fotografias formando uma película nunca mais revista. E tudo a passar, como os livros lidos da estante, alguns lidos com calma, outros lidos e apenas lidos, nada para se lembrar. Pessoas e situações, e beijos e palavras, e vindas e vidas. Dos trezentos e sessenta e cinco dias vividos em cada ano, nos lembramos de alguns poucos, e das vinte e quatro horas de cada dia, dormimos e nós esquecemos, e a vida não é tão devagar quanto alguns setenta anos vividos por uma pessoa, a vida passa rápido, veloz como as imagens passadas nas janelas dos carros e dos ônibus. Muitas vezes enquadradas outras em movimento continuo que não cessa, esquecendo assim o motivo de se existir. Se é que há motivo, ou se os motivos são tão inconstantes quanto o movimento das paisagens nas janelas. Passam, não ficam, não se tem o que compreender.

Aqueles olhos claros

Chiquinho foi embora depois do carnaval, já farto de tanto batuque e pauladas.
A vida não era fácil, brigas cotidianas, grana curta. Um dia todo mundo cansa.
Ninguém sabe ao certo por onde ele anda agora. Uns o viram acabrunhado próximo à feira, outros juram que ele conheceu outro alguém e apaixonado decidiu sumir. Amelie estava muito focada em suas novas atividades. Depois de tanto tempo juntos ela se interessou por vida acadêmica e boêmia e em nenhuma delas cabia mais Chiquinho. Às vezes ele passava dias inteiros sem ela e quando se viam não era a mesma coisa. Não por ela, não sejamos injustos. É que Chiquinho lá dentro dele almejava outros braços, braços mais atenciosos. E dava pra notar em seu olhar perdido por baixo da mesa de sinuca. Um belo dia tomou coragem, atravessou ruas e ruas e tomou gosto pelo vento que rodava solto por seu corpo. Cheirou porcarias e carne fresca, parou diante dos carros e acelerou quando podia. A casa ficava cada vez mais distante e não sentia saudades. O chão chamava mais chão e ao olhar para trás nada o impedia de prosseguir. Cansado durante a noite desejou uma só vez a velha cama de tapete e a água fresquinha perto da porta da cozinha. No mais, seu coração aventureiro rimava versos ao som de novos batuques de outros carnavais nada parecidos com os de antes. Mas aquela casa com tijolos quadriculados e o leve roçar das mãos de Amelie sobre os seus pêlos lhe fez entender que as aventuras de uma nova vida não lhe era assim tão atraente, nada se comparava ao cheiro do colo de sua amada, nem mesmo o contato com o chão gelado de sua antiga casa, e as músicas que vinham do rádio da sala direto para seus ouvidos quando estava dormindo. Lembrou do último olhar que viu de Amelie, incompreensível como o último olhar que deu a ela, azul e enrugado, Amelie entendeu mas não soube dizer como, seus olhos reproduziram a mesma sensação, era a derradeira vez que o vira. E assim não sentiu a mesma calma que sentia quando lhe encontrava no terraço, dormindo no tapete, calmo, mesclado, de olhos tristonhos que pediam carinho, e ela dava mesmo sem os ver, tantas vezes lhe sufocou com isso, tanto que Chiquinho despejava sobre ela seu veneno felino, e lembrando disso Chiquinho sofreu, lamentou a fuga, lamentou o último olhar de Amelie, lamentou os novos amores encontrados, lamentou a volta. E descendo a calçada em busca dos dedos delicados de sua verdadeira amada que chorava sob a varanda da casa quadriculada a sua espera, encontrou o brilho de uma luz que não sabia de onde vinha, esse brilho ofuscou sua visão e deixou tudo claro. Amelie continuava a esperar.

Por Paula e Lella

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Caminho

Cheio do pouco
Vazio
Que tenho.
Inspiro um olhar
Cheiro o silêncio
Busco algum sorriso
Que me leve a crer
Que existe
Algo
De verdade.
Na minha vida
O objetivo
É querer
Depois se aprende
Com o que não voou
Do pensamento.

sábado, 17 de outubro de 2009

Estranhamento

Puxou para o pulmão com uma força estranha, parecia puxar o último ar da Terra, o último suspiro vindo de um amor desesperado, e não havia solidão, estava tudo completamente se enchendo como os pulmões. Os olhos se abriram, as pupilas descobriram o mundo, junto com o olfato e a boca ainda inspirando a fumaça cálida e estúpida como um incenso de laranjeira aceso sob o nariz. Fechou os olhos com vontade de esquecer, a última mágoa, a última tragédia, a última solidão. Estava em paz. Seu corpo jazia feliz, assim ao mesmo tempo desesperado pela busca de um coração que batia aos pulos, e uma felicidade estranha que parecia uma morte que nunca saberia como seria, um gozo, uma poesia, um olhar calmo ao lado que pedia a mesma sensação. Entregou sua sensação como se fosse a mesma que sentia, como se fosse parte sua. Seria bom compartilhar. Assim tudo se acalmava, estavam os dois inertes, imóveis quanto aos problemas do mundo, que naquele instante não existia, e pouco importava se existisse. Algo flutuando no ar, algo que não poderia ser visto, nem compreendido. Se olharam e não tiveram medo do silêncio, se olharam e se esqueceram. Enquanto um se via o outro se olhava, e assim ambos se enxergavam e buscavam palavras, porque os seres humanos tentam compreender tudo. E ao perceberem que não havia resposta, procuraram não compreender, e acharam mais respostas do que se perguntassem. Quatro pupilas se olhando, abertas, amendoadas e silenciosas. Tiveram medo e olharam para o vazio temendo nunca existir verdade e temendo que este momento se acabasse voltaram a se ver, tentando compor com palavras alguma forma de preencher o incompreensível.
- Quando estou com você sinto algo estranho...
- Estranho é o que não se sabe explicar ou que é diferente de tudo que sentimos antes?
- Acho que é o que não se sabe explicar, mas não diferente de tudo... estranho é não saber lidar...
- Então esse “estranho” traz algo de irreconhecível, talvez pelo menos a principio... mas porquê compreender? Quando se reconhece se perde este estranhamento, e assim a atenção, a importância ou encantamento.
- Estranhamento... Em literatura usam este termo para dar nome ao processo pelo qual percebemos quando uma obra é literária, ou seja, quando ela difere da não - literária.
- Seria o que sentimos ao ler um poema, por exemplo?
- Sim. Achamos estranho quando lemos um poema, sentimos algo incompreensível, porque a literatura não é compreendida imediatamente como o texto não-literário, há este estranhamento, não entendemos de imediato a ideia, ou a mensagem que o texto quer passar. Entende?
- humm...Mais ou menos como o amor...
- A principio?
- Sim. O amor... é estranhamento.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Tantas palavras

Tantas palavras
Os olhos cansados de ver
E as mãos sem ter o que acariciar
Despede-se da noite como um namorado que não ama
São tantos goles a rondar por sua cabeça
E as palavras...
Embebedam-se com o silêncio
E dizem
Dizem em tantas línguas
Cansados os olhos mentem
Querem dormir, mas esperam
A resposta que nunca vem
E tão farto do silêncio das palavras
O poeta procura
E só acha
Mais palavras.

Segredo

Um olhar de calmo segredo.
Segredasse as minhas palavras
Agora a resposta é mera convenção
Crio o amor para viver melhor o tédio
E me entedio de tanto querer
E não ter.
Responde:
Existe resposta para as minhas palavras?!