sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Monotonia poética


Talvez saia uma poesia
Dessas com declaração de amor que nunca dão certo.
Talvez saia um conto
Falando de olhos, tardes românticas, e encontros perfeitos que não passam de encontros.
No final de tudo, tudo que acontece serve para inspirar.
E se não acontece nada o tédio também inspira.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Imagin(ANDO)


O vento passa pelas folhas
Meu pensamento está longe e como o vento passa.
Podemos fugir e pegar aquele carro no meio da estrada?
Será que temos sempre outras alternativas?
Ela disse que ia vender seus filhos
Eu me imaginei tendo um.
Eu imaginei também uma grande noite,
Roda gigante, casas coloridas, frio, abraço.
Imaginei final de tarde,
Sorvete com duas bolas,
E correr pelo parque feito criança.
Imaginei que desse certo.
Imaginei paz,
Eu a tive
Mas não era a que eu queria.
Como dói a verdade,
Como dói entender,
Eu imaginei ser como a mulher que quer vender os filhos,
Como o cara que corre veloz na pista,
Como o rapaz que caça insetos,
Eu me imaginei sem medo,
Eu me imaginei sendo fria,
Eu me imaginei sendo outra.
Só imaginei.

sábado, 6 de dezembro de 2008

"As palavras deviam exprimir exatamente aquilo que queremos dizer"



Mesmo que a recordação do cheiro passe eu ainda devo levá-lo para algum lugar por um tempo, para o abismo do meu coração, no passado trancado a portas que não abrem mais, ou para as caixinhas coloridas cheias de lembranças onde posso abrir a qualquer hora. Eu aprendi que de tudo sei sobre o nada, e que se volto atrás sou a pessoa mais estúpida do mundo. Estupidez é o que eu digo, ingenuidade é o que falam. E se falam mentem, e se escrevem poemas desabafam, nunca use um poema para mentir, não dá certo. Seria também a traição mais cruel ao sentimento que não sente. Poema é coisa séria, escrever é coisa séria, isso eu aprendi, aprendi tentando escrever, só não aprendi a escrever. Acredito no que a Clarice Lispector disse sobre escrever, que escreve para encontrar as respostas, um auto-conhecimento, é bem claro isso quando escrevemos, tentamos exprimir algo além da palavra, algo que não poderíamos dizer, e na maioria das vezes erramos, as palavras traem, assim como na fala também se erra na escrita, não dizemos aquilo que queremos e quanto mais nos conhecemos mais nos perdemos nesse conhecer. Me escondo e me acho quando escrevo, me mostro e me escondo. Eis porque escrever se torna um vicio, queremos achar mil coisas dentro de nós, mil pedacinhos falhos e acertados, mil coisas doces e ásperas, encontrar a beleza que não existe na nossa superfície. E queremos nos mostrar, porque somos os bichos mais vaidosos, mas às vezes mostramos tanta coisa feia e nos escondemos como bichinhos medrosos. O mais medroso é o escritor, ele guarda tudo que sente para seus textos, decora tudo para falar e não fala, guarda tudo para depois vomitar no papel, bichinho egoísta também e vaidoso, até o mais tímido adora mostrar o que escreveu. Eu gostaria de levar agora o cheiro que senti para esse texto, faz tempo que tento, mas não consigo, por quê? Eu queria guardá-lo, tirá-lo de mim, já esfreguei mil vezes, queria tomar banho de ácido, porque sabonetes e água não bastam. Mas o cheiro se impregnou, tomou conta e continuo a senti-lo mesmo que tapando o nariz, algo fora do corpo, psicológico, que se mistura ao físico para dar vida ao que só existe na imaginação. E que fique na imaginação já que o real é o que existe, não quero ilusões para curar o tédio, não quero poemas, nem declarações, quero verdades, beijos e abraços e outras coisas que se possam tocar. Mas agora acho que já falei demais como sempre, tantas palavras para perceber que não queria dizer nada disso.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Me ponho sobre seus cabelos e penso:

Teus cabelos encaracolados não sabem o que fazem
Me ponho sobre eles e penso: porque o mundo é tão cruel?
Não somos desse mundo, somos de outro mais bonito
Com sorrisos e cócegas que não cessam
Com narizes tortos indicando a gentileza
E sorvetes de amendoim.
Me ponho sobre seus cabelos e penso: de onde vem tanta calma?
Se vivemos com pura alma e somos burros,
Se não vivemos e não sentimos como querem,
Se nos importamos,
Se somos nós e não cansamos de ser.
Se sou eu e você em uma praça a nos perguntar o que devemos amar,
Mais uma vez me ponho sobre seus cabelos e penso: sofro.
E por sofrer às vezes sou feliz.
Não há mal nisso.
Me ponho sobre seus cabelos e penso: que poesia deveria decorar para você?
Se sabes do Quintana, do Bandeira e do Gullar,
Em qual lugar?
Numa praça, numa estação, ou num boteco,
Em que teto devo estar?
Me ponho sobre seus cabelos e penso: como pode me compreender?
Como pode gostar dos meus olhos se eles nada dizem?
Me ponho sobre seus cabelos e penso: é aqui que deveria estar.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Entre príncipes e princesas


Mais uma noite se passa com a mesma calma que não gosto, enquanto buscamos a segurança somos atraídos pelo perigo, ele que move, ele que envolve, com suas mãos de fada e seus olhos de doçura. Quente entre pernas e quartos a meia luz. Porque não querer o óbvio, o que a gente sabe que vai dá certo, a certeza plena não envolve, não satisfaz. Enquanto se fecham as portas das oportunidades se abrem as portas do medo, e não adianta ter jardins floridos para sustentar a ilusão, um dia a chuva vem e arrasta as rosas com as raízes mais firmes do seu jardim. A realidade é o abrir de olhos em meio ao sonho mais feliz, é o final do abismo em que se caiu, o chão, é o pai bravo descobrindo seu segredo, o último adeus a quem se ama. Eu poderia acordar agora, tomar o meu banho, vestir a minha roupa e continuar a minha rotina com o que tenho e o que posso ter, apenas. Mas precisamos sonhar, só para ficarmos insatisfeitos, a eterna insatisfação humana não se satisfaz. Mesmo que eu tenha sonhado o sonho inteiramente, sem nenhuma interrupção, mesmo que alguém tenha me contado uma linda estória antes de adormecer, dessas em que o príncipe salva a donzela em perigo, ou a que o bem vence o mal no final, a realidade continua a ser a vilã que rouba a cena, e fico de olhos abertos a noite inteira, vendo o sonho passar junto com a noite, e o real se aproximar junto com a manhã, pulo da cama da fantasia e volto para a cama da realidade e dela vejo o corpo do sonho estendido na cama da fantasia me dizendo para voltar. E como a mocinha indefesa que insisto em não ser volto, mas nesse conto de fadas o final não é previsível, mesmo que as pistas levem para um final infeliz, na minha estória não existe o príncipe que venha me salvar, me cansei do príncipe e me sinto culpada por isso, me cansei de ser princesa e por isto não sinto culpa. E busco enfim o caminho que não tem tijolos de ouro, o mais difícil, o que uma princesa não escolhe sozinha, pois no seu castelo há criados que lhe servem. No meu castelo não há mais criados, nem príncipes, nem reis despóticos, nem rainhas loucas, nem mesmo eu sou uma princesa, e mesmo que eu ainda acredite em conto de fadas eu sei que no final da estória não vai ser um príncipe que vai me salvar.

Maldito tempo e seus círculos


As luzes da cidade brilharam sob o prédio e eu olhando pela janela me perguntei em que mundo estava? Minha cabeça estava cheia, meu coração estava aflito, de novo olhar nos olhos das pessoas e ver a mesma expressão previsível, de novo olhar para dentro de si e me perguntar, o que estou fazendo? Eu queria não dormir hoje, mas meus olhos estão cansados, mesmo assim meus sonhos vão refletir os desejos que tenho e as vontades que não vão ser atendidas. Eu só queria encostar minha cabeça em um ombro, apertar meu corpo bem forte contra outro ou deslizar minhas mãos em mãos mais fortes que as minhas só que dessa vez mais seguras. Encontrar um coração mais seguro que o meu, poder ouvir eu te amo sem se sentir culpada ou confusa, dizer eu te amo sem ter medo da resposta. Mas o tempo não passa, o tempo faz círculos e volta para os mesmos lugares cheios de ilusões me deixando tonta de sensações que não passam. A felicidade é tão cruel que volta, a felicidade é tão cruel que engana, a felicidade é tão cruel que quando chega escolhe os olhos mais doces para se esconder, as mãos mais sensíveis para te tocar, a boca mais gostosa para dar gosto, o cheiro mais denso para te embriagar, e o corpo mais forte para te prender, e prende quando você já está lá e não há mais volta porque você não quer ir embora. A felicidade escolhe os sentimentos mais nobres e combina com eles o tempo certo de chegar e ir, e vai, deixando conosco, a rotina, o tédio, o medo e a ilusão. O cheiro doce que sinto agora não é o mesmo daquela noite, sorte que me lavei para não levar comigo os sonhos que guardei a madrugada inteira, com medo de dormir e acordar com a realidade, quis olhar seu corpo e fingir que era real, fingir que era possível, que era simples, como uma música qualquer, quis olhar seu corpo a noite inteira e fazer o tempo parar, para não ter que acordar e enfrentar a realidade com outros olhos, olhos tão doces quanto os seus, olhos mais sinceros que os meus, ouvir palavras com significados tão cruéis, mas mais sinceras que as minhas, queria ser forte e mentir, queria não querer, queria não entender, queria não ser eu agora. Não me pergunte se estou triste, não estou, só estou procurando olhar para dentro de mim e ver que não sou a única pessoa que existe no mundo. Eu sei que gosto disso, eu sei que prefiro a ilusão que o tédio, mas agora acho que não preciso mais ocupar a minha vida com ilusões, nem com banalidades, nem com pessoas e sentimentos que não dão certo, não preciso mentir, nem enganar, o tédio agora pode ser mais seguro e pode me fazer entender o que ainda não aprendi, não quero sair hoje e ocupar a minha cabeça, posso ler um bom livro, escrever ou simplesmente dormir, posso ser mais doce e menos impulsiva, posso ser eu sem precisar de outra pessoa. E não me peça para voltar, se não tiver lugar na sua casa, não me peça para pular senão puder me segurar, não me peça para te abraçar forte enquanto você dorme se na sua cama só tem lugar para você, e não me peça para ir embora se desejar que eu fique. E enquanto as luzes ainda estão acesas ou não param de piscar, eu vejo que não existe alguém que se possa mais amar do que eu mesma agora, e isso não é egoísmo, pois se não é possível compreender quem se ama, basta que eu me compreenda e perceba que não vale à pena amar sozinha.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Viver a vida


Enquanto não curo meu vício procuro os teus braços para curar meu tédio, e curo. Teus dedos me fazem ter ansiedade, eu domo os meus pensamentos aos goles de cerveja e procuro pensar em ti aos tragos de cigarro, a noite passa, a madrugada é doce, o cheiro é calmo, mas de novo não me acalmo, volto para casa com a tarde e no crepúsculo escuto as músicas que embalam o meu não-querer. Quando não consigo parar de pensar eu perco o ônibus e volto para casa mais tarde com remorso de não ter dado as moedas para o mendigo que conta as feridas no corpo para que tenhamos pena, eu tenho, mas não dou nenhuma moeda, viro o rosto para não ver o que é feio e não me sinto culpada de nada de mal que acontece no mundo, mas será que não sou? Quando paro e penso minha consciência pesa e me sinto ruim, o mundo me faz ruim, minhas ações me fazem ruim, e me sinto ruim por ser parte de tudo. Enquanto eu falo de amor, enquanto eu falo de mim, tudo está se destruindo e, no entanto agora eu me sinto a pessoa mais importante do planeta, a mais vitimada, a que não erra e que nunca errará, a que vive a vida tentando imitar um filme francês desses com jovens que aproveitam a vida, rebeldes e sem culpa, e confusos, confusos de viver. Viver confunde, viver não me faz aprender, não aprendo vivendo, mas também não aprendo se não vivo, só faço as mesmas coisas e erro de novo porque não aprendo com a vida e acredito no erro, e quero errar novamente humanamente. Todos os dias eu quero que as possibilidades de errar voltem para eu me questionar o que é certo ou errado? Para dizer que posso errar e acertar dentro do que penso ser certo ou errado e que em muitas vezes é diferente do que outras pessoas pensam, e de repente alguém me diz que amar dessa forma é sujo e escuto passivamente e conscientemente me pergunto se deveria ter ouvido e se deveria ter dito que amo e que gostaria de dizer que continuarei a amar seja quem for que me atraia por algum motivo. Gosto das pessoas e ao mesmo tempo as odeio e me odeio também por ser também pessoa e sendo pessoa ter o vicio eterno de machucar procurando não machucar, não acho que exista alguém no mundo que não pense no outro mesmo que tarde, que não pese a consciência por ter machucado, às vezes minha cabeça dói por tantos defeitos que vejo no espelho, e quero enfiá-la na terra para não ouvir o que tenho que escutar às vezes. Mas mesmo assim a felicidade vem e me embriago, esqueço o mundo, e esqueço do lado de mim que é chato, burro e mesquinho, e dentro do que penso que é felicidade entre goles, beijos e sorrisos, eu lembro de uma frase que vi num filme recentemente “ a felicidade não é engraçada”.